Se uma pessoa não bebe bebidas alcoólicas, nem café, nem fuma, nem gosta de comer comidas excessivamente condimentadas, nem de ir a locais com luzes estroboscópicas e sons ensurdecedores (vulgo discotecas) é logo apelidada de totó, porque "não sabe aproveitar a vida". Quem diz isso, também defende que quem tem uma vida dita saudável, para o fazer, tem necessariamente que renunciar todos os prazeres da vida, pois só dá prazer aquilo que faz mal ao corpo. São também da opinião que quem tem uma vida dita saudável, só o faz porque pensa que com isso vai conseguir prolongar a sua vida, mas questionam qual o interesse de o fazer, se não vão tirar qualquer partido disso...
A mim sabe-me melhor beber um copo de água que um de vinho. As comidas condimentadas e o café fazem-me azia. A música excessivamente alta faz-me dores de cabeça. As luzes estroboscópicas enjoam-me. E o fumo do tabaco provoca-me uma irritante sensação de mau-estar.
Será que o prazer da vida é sentirmo-nos mal, enjoados, com dores e azia? Isso a mim causa-me depressão e mau-estar e não considero isso bom, nem acho que isso seja aproveitar a vida. Acho sim que é desperdiçá-la, sucumbindo a estereótipos sociais do que deve ser uma vida de prazeres (e sacrifícios ditos como males menores), inventados sabe-se lá por quem... (ou se calhar até nem é preciso pensar muito para descobrir quem e porquê... mas o melhor mesmo é beber mais uns copos para não pensar muito, que isso de pensar é coisa de totós).
Não pratico exercício físico para manter a linha, aliás, a linha é coisa que nunca me preocupou... Gosto de correr descalço na praia, porque gosto de sentir a areia nos pés e de inalar o ar salgado do mar. Gosto de esbracejar dentro de água (vulgo nadar) porque me dá uma agradável sensação de liberdade.
Gosto de comer uma salada e beber um sumo natural, porque me sabem bem e me saciam a fome e a sede. E, ao invés de andar o dia todo a sentir-me pesado, mole e a tomar pastilhas para a azia (que o molho da feijoada provocou), passo o dia com uma sensação de leveza, bem disposto, e cheio de energia!
Se ter estas práticas saudáveis me fazem sentir bem no dia-a-dia e, além disso, ainda tem a consequência de me prolongar a vida... não vejo nisso um efeito nefasto...
Esses seres iluminados, que sabem viver a vida, vêm irreverência nos estereótipos mais estupidificantes e banais da sociedade (sem sequer se aperceberem que estão, muitas vezes, apenas a sucumbir a interesses económicos, mas é melhor nem ir por aí, que isso é conversa paranóica de totós). Eu, essa irreverência, vejo-a como um mero atestado de burrice.
E não, não é verdade que quem não fuma e não bebe também não fode. Pelo contrário, até é provável que o faça mais, pois tem melhor condição física para o fazer mais, melhor e por mais tempo...
Portanto, escusam de me vir tentar ensinar como é que se deve viver a vida e tentar convencer quais são os prazeres da vida, como provavelmente vos fizeram a vós. Eu quando quero ter prazer na vida, faço aquilo que realmente me dá prazer e não aquilo que os outros dizem que me deve dar prazer.
Experimentai um dia libertar-vos desses falsos ideais de prazer e felicidade. Sede verdadeiramente irreverentes, como julgais ser, e guiai-vos por aquilo que sentis e não por aquilo que vos dizem que deveis sentir. Talvez assim um dia sejais realmente felizes, em vez de meramente pensardes que o sois.